domingo, 31 de dezembro de 2017

Ao Meu Outro Outroeudopassado

Ao Meu Outro Outroeudopassado

Ouvindo The Magician, de Andy Shauf

Resposta a uma carta que escrevi a mim mesma no início de 2017.

Meu outro Outroeudopassado,
sinto muito ao lhe informar que você está prestes a produzir um dos textos mais difíceis que você mesmo escreveu em seus vinte anos de vida, ou em seus quatorze anos de escrita. Não coube tudo. Você passaria anos escrevendo se tentasse fazer com que coubesse.

Chovia no fim de 2016, não chovia? Chovia lá fora. Também chovia no seu rosto. Lembro perfeitamente do ódio e da confusão que rodeavam seu coração doído. Lembro do contraponto – os amores abraçados no banco de trás do carro. Lembro do medo de voltar pra casa, do ódio defensivo que você não achou que fosse capaz de sentir – mas sentiu –, e do medo que lhe provocava aquele ódio.
Não sinta tanto medo de odiar. Odeie. Odeie tanto que não lhe restará nada para odiar. Só não fuja do ódio. Não o mascare. Não tente enganá-lo. É a si mesma que você pensa, agora, que engana. Mas não engana.


Foi um comprimido que resolveu sua cabeça. Não por completo – jamais por completo –, mas de forma radical o suficiente para lhe abrir os olhos para dentro. Para conhecer uma personalidade da qual você não tinha a mínima consciência sobre. Para sentir-se livre para falar, expressar, gritar no meio de um ponto de ônibus lotado na saída da faculdade.
E se esse for o mais próximo de ti que você já se enxergou chegando? E se você amar essa divindade?
É assim que acontece. É assim que se mergulha no abismo.


As festas foram fantásticas enquanto duraram. Foram prova de amor, de lealdade. Foram produtoras da independência, de amizades fantásticas, de memórias surreais e da sensação de ser dona do mundo. Não foi real – mas o que é real, afinal?

Você saiu com louvor do caos universitário. Foi uma despedida extremamente graciosa, majestosa, individual. A sensação de observar o produto final, suspirar e dizer que tudo era seu... valeu os quatro anos, ou mais. Foi esse produto, aliás, que lhe fez adentrar a fundo a maior paixão de sua vida até então – a própria paixão, ou o amor, como preferir. Você conversou com pessoas que jamais imaginaria existirem no âmago de indivíduos já conhecidos, mas não tão conhecidos assim. Foi extremamente belo. Foi gratificante observar o molde que você criou com suas próprias mãos, aquele que duvidaram que você conseguiria criar. Continue moldando o seu próprio mundo, ao invés de tentar moldar a si mesma para adequar-se ao mundo alheiro.


Houve o medo da perda de seu pai. O mais próximo que chegamos do sumiço eterno daquele que você mais ama no mundo. Você nunca mais disse que estava sozinha. Ele está sempre lá. Foi só aquele susto – talvez o maior susto de sua vida até então – que foi capaz de lhe fazer sentir na pele a solidão real. E ela não se aproxima da sensação de ser sozinho.  Ela não chega nem perto.

Houve o término. Observando de fora, talvez ele tenha ocorrido contra a sua vontade. Vocês choraram em sua cama durante toda uma tarde, até as cabeças doerem e os olhos incharem. Vocês dormiram juntos, andaram juntos. Foi dessa dor – que você obviamente não desejava –, que veio a constatação. Não se aprende quase nada quando não chove. Talvez nem baste chover: precisa trovoar, ventar, arrancar algumas árvores pela raiz. Você só sente quando o chicote rasga a carne do cavalo. Ver a sombra do chicote se aproximando não provoca efeito. Não lhe faz correr. Não lhe mata e, portanto, não lhe faz nova.
Seria uma droga se você pudesse escolher o seu lugar. Porque você nunca estaria no mar agitado. E são essas ondas que lhe transformam. Você se auto sabota estendendo os braços sempre na direção daquilo que não pode alcançar. Não é porque você precisa. É porque você é um pouco caprichosa.


Estava quase amanhecendo quando você observou aquele grupo de pessoas bêbadas dançando no quintal. Você as amava. E você sabia que devia estar ali, e que não estaria se o pudesse ter evitado. Foi o conflito que lhe deu, como consequência, a glória. Talvez fosse o que você quisesse – mas não era o que você precisa. Confie no que ocorre. Você vai entender um dia. Mesmo que doa. Mesmo que dilacere seu coração. Mesmo que lhe mate. Você vai entender um dia. Mesmo que demore.



Teve a paixão, também. Foi puro, extremamente belo, no momento exato. Lembro sempre daquele quarto. Lembro das sobrancelhas que franziam enquanto o anjo citava Nietzsche. Lembro-me da paixão por Cobain, do corpo mais perfeito que já beijei – do topo da testa até os ossos salientes da bacia. Houve os cigarros, as drogas, o sentimento de segurança mais rápido que já lhe aconteceu. Ele lhe salvou, você o salvou. Vocês viram seus filmes favoritos juntos. Ele gostava dos tons amarelados de Lars von Trier. Sua mente era caótica. Você aprendeu a amá-la. Você sente sua falta.


Os amigos. Muitos. Talvez as pessoas mais bonitas que você já conheceu num período temporal razoavelmente curto. A lealdade traz recompensas particulares mais valiosas do que qualquer outra coisa. Eu não trocaria todas as riquezas do mundo pela entonação relaxada da voz de quem me fala calmamente de seus sentimentos. Não trocaria cristais pela sensação de estar no lugar onde deveria, ouvindo quem deveria. Não trocaria. Eu sou assim, também.

A tempestade passou.
Você sabia que passaria, não sabia?
É aqui que você deveria, deve, deverá estar. Tudo que ocorreu serviu para lhe trazer – mesmo que violentamente, contra sua vontade egoísta – para esse lugarzinho iluminado. Esse lugarzinho exato, divino. Esse lugarzinho seu, maior do que qualquer lugar ao qual você já pertenceu antes.
Você sempre soube que só havia beleza verdadeira no vermelho violento do sangue.

Agora, sinta sangrar.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Íris

Íris

Hide My Face, Acid Ghost

Uma de suas íris é estranhamente inclinada à parte interna de seu olho. Foi um detalhe que demorei a perceber, capturado enquanto meu nariz tocava o seu. Em sua cama, eu lhe utilizava de travesseiro enquanto segurava seus punhos acima de sua cabeça, grudados no colchão. Aquele milimétrico estrabismo foi uma surpresa engraçada, que me conduziu a amar beijar suas pálpebras fechadas.

Foram os olhos que me encararam de volta, para dentro da alma, quando busquei segurança nas palavras que me consolavam, dizendo que ninguém iria embora. Ainda dilacera pensar que, por vários segundos, eu encarei aquela segurança firme defronte ao espelho, que refletia seus braços em meu entorno. Foi triste lhe ver indo embora naquela noite doída. Lembro de meu corpo doente, segurando sua mão fragilmente no trajeto de carro até a rodoviária.
Quando devaneio sobre a não-reciprocidade amorosa, penso em como sua mão pendeu por entre meus dedos enquanto eu resistia em soltá-la. Seu olhar, sólido, fixo no meu. Aquela força presencial me engana profundamente. Indecifrável.

O transtorno mental que assombra e deforma minhas memórias, transformando em pesadelos constantes meu tom de castanho favorito, algema meu desejo de esquecer as noites turbulentas em torno de meu conceito de “presença”, incompreendido por ti.
Doía e dói, brutalmente, o brilho que só retornava aos seus globos oculares ao mencionar outro nome, diferente do meu. Sorria defronte o impacto, encorajando-o a seguir. Chorava em segredo sob os cobertores, sentindo-o cada vez mais longe. Doía e dói, irracionalmente, que o ser abrigado por ti naquela noite de crises violentas, não podia ser eu. E dói, doía mais, sua indiferença e certeza de que, de longe, você não poderia me auxiliar satisfatoriamente.  Era meu corpo que trincava enquanto, com suas mãos, você juntava os cacos d’outro ser.

Transborda portar, nos olhos, o oceano de sentimentalismo onde mergulham estas partes possivelmente mentirosas de minhas lembranças. Onde se sentem as saudades que, quase sempre, ameaçam não ser devolvidas. As mesmas que me dão medo sobre o esquecimento defasado da feição daquele que foi minha casa. Da voz que me sussurrava amor. Das mãos que aqueciam as minhas. Do cheiro do cabelo dourado. Dos olhos. Íris. Pupilas que me encaravam.

Eu continuo com medo de mim.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Astrais

Astrais


Da canção que adquiria um formato espectral, atravessando as paredes do quarto, vindo se hospedar nos meus ouvidos. Da voz aguda que, subitamente, despertou as memórias que queimavam na parte mais funda da mente.  Tentei guarda-las depressa, fugindo entre os cobertores que não me permitiram dormir. Em minha cabeça, a armadilha insuportável e recorrente de lembranças aterrorizantemente detalhadas que eu tentava estancar. O medo de contaminá-las com a mágoa vaporosa emitida pelo sangue fresco do trauma.

A pureza da qual sentia falta. A expressão confusa do rosto que vi pela primeira vez. E como aquela voz se arrastou pela minha cabeça todas as noites após a primeira. O som limpo do violão triste, e a suavidade do corpo que, às vezes, o carregava nas costas. O sorriso que machucava minhas bochechas, e a paz que se estendia sobre minha alma inquieta após tanto tempo só. As flores no seu cabelo. As fotos antigas que me assombravam por não terem sido deletadas. Meu pequeno príncipe, seu casaco azul. O disco de 1973.

Todas as noites fora da classe. As árvores, os bancos de concreto. A última prateleira, que eu não consigo mais visitar. Você me esperando no fim do corredor. O frio, seu cachecol. Você acordando cedo com o sol. A endorfina que me movia nas tardes de inverno. Seus lábios trêmulos, quase intocados, tão meus. A expressão nos rostos dos amigos. A ilusão do mundo mágico que se privava aos blocos daquela universidade.

Como se tudo tivesse mudado quando crescemos para fora daquele espaço. Como se crescer doesse muito. Como se o amor fosse exclusivamente planejado para me matar, todas as vezes. Pior dessa vez. As lembranças antigas transmutando lentamente. Eu sentia nossos corpos inertes no meu tapete. Suas lágrimas. Seus braços me envolvendo por completo enquanto eu chorava sua partida sobre minha cama. A atmosfera mágica, subjetiva, tão nossa. Como se meu quarto fosse um templo e nós, como santos, pudéssemos dormir juntos durante a tarde toda.

Talvez você nunca entenda. O que senti quando cruzei sua porta naquela tarde. Os horrores sobre os quais eu me permitia chorar no seu colo. Como meu coração estava disparado quando você me cobriu na sua cama. E sua respiração acariciava meu rosto quando você deitou ao meu lado, com o nariz quase colado no meu. A fortaleza segura que eu visualizava em torno de mim. Os desenhos na parede. A urgência do beijo regado pelas lágrimas que eu escorri. Você por toda a parte. Seu rosto entre minhas pernas, seus lábios nas minhas coxas, seus olhos pedindo permissão. Da dor que me abateu quando precisamos sair tão rápido do meu lugar preferido. A última vez. Eu só queria ter ficado.

Segurando sua mão como se você ainda fosse meu. E te vendo ir embora. Como se eu fosse junto. Como se aqui nada restasse, senão essas memórias.  A mandíbula dolorida após choros silenciosos. A sensação de que meu peito rasga lentamente, tão real que parece remediável.  Suas fotos, a camiseta. A visão de sua silhueta na janela. Os sonhos assustadores, a taquicardia. A falta que eu nunca sei se é recíproca.  A lua cheia. Minhas lágrimas. Seu fantasma. Minha morte. Meu amor. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Meu Anjo, Meu Amor

Meu Anjo, Meu Amor

Ouvindo: Sad Boy, Rad Horror

Eu vou te guardar na minha torre. O mundo lá fora não penetra minhas cortinas brancas. Não faz frio na minha cama. É macio no meu tapete, se quiser cair.
Eu vou beber suas lágrimas e transformá-las em palavras lindas. Vou cantar no seu ouvido pra ver o canto da sua boca se curvar. Vou extinguir as roupas, te segurar com tanta força contra minha pele que você vai reclamar de calor. E eu não vou ligar. Nem soltar.

Porque eu te vi indo embora sem saber que era mentira. Como refém das minhas histórias às vezes reais, às vezes fictícias. E eu vi tudo em ti. Tu em tudo. Eu tive medo de não sentir sua barba machucando minha barriga enquanto você desce. E eu queria sentir esse machucado. Por muito tempo mais. Tudo era você. Eu era você.

Eu espero que você não tenha medo. Do meu medo do que vai embora. Eu não consigo controlar as reações químicas do meu cérebro, e às vezes elas explodem. Meu eu-consciente vai te proteger de mim. Dos demônios que te assombram. Do que você quiser.

Seus olhos entreabertos. O corpo descoberto. As calças xadrezes. E a gata no colo. Minha calma. Minha paz. Fortaleza de amor pelo mundo. Deixa eu me afogar em ti. Beber você pela boca, pela mente, pelo resto do corpo todo. Deixa eu admirar você. Suas costas. Seu nariz. Sua boca pequena, macia, redonda. Eu vou te morder de amor.

Os braços que eram seus, e agora são meus. O único lugar onde consigo dormir sem acordar. E, se acordar, ver você. Sentir sua respiração quente no meu pescoço. E as mãos quentes nas minhas coxas descobertas. Tudo tem cheiro de você. No seu travesseiro, nos cobertores. E eu misturo meu cheiro ao seu. Eu rego sua cama com minhas lágrimas, eu debruço minha dor em ti. E você me abraça. Você é só calma. A beira da lagoa. A arte dos muros.

Me deixa te levar pro outro lado do estado. Pra cima das dunas, das montanhas. Te mergulhar na água salgada. Sentir o sal pinicar nossa pele bronzeada de verão. Me deixa te beijar na orla, sentir seu corpo todo, te transbordar de prazer em mim. Me deixa te levar pra uma casinha de vidro no meio das árvores, das flores, das orquídeas. Plantar um jardim em ti com minha boca. E minhas palavras. E meu amor. Te causar arrepios com a língua. Em todos os lugares. Em todos os sentidos.

Eu vou te mostrar meu mundo lindo.  Criar nosso mundo de sol. Não vai existir inverno, nem chuva, nem pais. Vai ser as tardes no meu quarto. As noites no seu quarto. A gente vai sair pra passear num barco. Você vai me contar sua calma. A Cassie vai falar. Eu vou conseguir entrar na sua cabeça por uma portinha roxa com a chave que você me deu. E eu vou levar minha espada pra matar seus monstros. Trazer seus cadáveres pra fora. Escrever tudo que você pensou duma forma linda pra te ajudar a entender.

A gente vai crescer tanto que vai explodir esse universo. Brincar com os planetas como se eles fossem bolinhas de nada. Enrolar as pernas na lua. Descobrir a beleza de tudo. Morrer de amor.
Me deixa te matar de amor.
Me deixa morrer de amor.
Meu anjo.
Meu amor.



quarta-feira, 7 de junho de 2017

Être

Être

Me fantasiava de rainha da beleza, beirando o fim dos anos 50. Sentia o tapete felpudo nas partes descobertas do corpo. O ar do aquecedor permitia a ausência da cobertura, balançando meus cachos em câmera lenta. Sentia os cílios falsos pesarem, irritando meus olhos sensíveis. A respiração lenta, que ora absorvia a fumaça contornando o incenso, ora as rosas que baseavam meu perfume, brilhando em tons de roxo sobre o bidê.

Iluminado pela minúscula luz do aquecedor ligado, meu quarto se tornava laranja. O laranja refletia na porcelana do prato que apoiava meus anéis. Ele não anulava o brilho azulado cadavérico da madrugada, que adentrava a veneziana das janelas e era, por fim, absorvido pelas cortinas.

Era melancolicamente bela, a minha solidão. Meu choro atravessava a pele do meu rosto pálido num traço tingido por maquiagem escura, terminando próximo à minha orelha direita, quando repousava sobre a pérola que atravessava o lóbulo auricular.

Eu lembrava do torpor dos dias em que precisei ausentar-me de mim mesma enquanto sentia o gosto do batom vermelho, que parecia mais escuro sob a luminescência laranjada. A dor que os rompimentos me causavam, e a dor que sinto ao projetá-los antecipadamente. O medo da possível e quase próxima necessidade da criação de novos hábitos. O novo que quase sempre me assusta.

Sentia-me terrivelmente sozinha, naquele cenário fictício. Não havia ser capaz suprir plenamente o espaço. Os olhos continuavam transbordando, as lágrimas evaporavam depressa. Retornava ao medo exagerado de fins.

A subconsciência, projetando alternativas também antecipadas, me forçava a lembrar de palavras que tive medo de dizer quando o carro parou sobre a ponte interiorana naquele dia de chuva. O beijo que não ocorreu, porque meu rosto ficou quente demais, e eu preferi olhar pela janela que ladeava o banco do carona, fingindo acompanhar o rio que corria velozmente logo abaixo de nós. Das palavras que eu nunca disse. Dos sentimentos que eu nunca demonstrei. Da mão que entrelaçou a minha tarde demais.

Com os olhos embaçados de lágrimas, vislumbrei uma minúscula fissura entre a renda e o cetim da meia que contornava minha coxa esquerda, logo acima do joelho.
Meu corpo vai partir em dois. Dois. Da dualidade do meu amor. Da dualidade do meu querer estar. E nunca estar. Sempre no limbo do “poderia ser”.

Silence was a killer too.

sábado, 1 de abril de 2017

Conto: Gato

Gato

Eu escondi meu gato no bolso da jaqueta de couro, fechando-a até o pescoço. Sentia o filhote de menos de dez centímetros acomodar-se entre o forro e meu peito, ao lado esquerdo, bem sobre meu coração. A viseira de meu capacete estava trincada, e aquele milimétrico furo era como um jato de vento gelado perfurando meus olhos enquanto eu acelerava a caminho de casa numa manhã nublada de junho.

O animal resgatado, que agora precisava ficar com a cabeça para fora da jaqueta caso resolvesse se aninhar dentro dela, tornou-se um gato gordo, cinzento e sem nome que passeava pela varanda logo abaixo da janela do meu quarto. Ele sumiu na última sexta-feira.

É bizarro porque, após uma série de eventos desafortunados como a perda de uma chave, os trabalhos que esqueci que havia acumulado sobre a escrivaninha, os pedidos de minha mãe para que eu ficasse em casa naquela tarde, um pneu furado e um espelho rachado, eu passei a perna esquerda sobre o banco estofado de minha moto e saí do terreno. Vi o gato de relance, aprumado sobre o muro ao lado direito do portão.

No final na rua, fui empurrado por uma caminhonete vermelha e barulhenta que triturou minha perna, quebrando-a em dois lugares diferentes – no tornozelo e logo abaixo do joelho. Quando cheguei em casa algumas horas depois, engessado e sustentado pelos braços de meus pais, o gato não estava mais lá. Nem na varanda, nem na janela, nem na jaqueta. Em lugar nenhum.
— Você viu o gato? — perguntei à mãe antes de deitar.
— Deve estar por aí... — ela respondeu, dando de ombros — Boa noite, filho.
— Boa noite.

Recebi 30 dias de folga, sem nem pensar em tocar o pé no chão ou mover o gesso pesado. Já se foram 12, e o gato não apareceu. Tinha sonhos sobre ele com uma frequência assustadora. Quase sempre, sonhava que deslizava a perna boa pelo lençol, sentindo sua textura e encontrando o gato encolhido, dormindo ao pé da cama. Isso se repetia algumas vezes, até que eu deslizava a perna, mas não encontrava o gato — apenas um corpo gelado que me agarrava fortemente com a mão ossuda e escalava minha perna até chegar ao peito, sufocando-me em meu sono.

Acordei assustado e ofegante no meio da madrugada, respirando com uma força exagerada para sentir se meus pulmões funcionavam como antes — eles funcionavam. Sentei-me na cama e fechei os olhos numa tentativa de parar os flashes do pesadelo, que rodopiavam infinitamente pelo meu cérebro.

Quase dois minutos após, ouvi algo raspar suavemente o vidro da janela. O gato costumava fazer isso no inverno, quando queria entrar para se aquecer, mas agora estava quente e abafado. Achei estranho, mas inclinei-me para mais perto da cortina. O mesmo arranhar, agora quase uma batida inaudível.

Nutrido pela certeza absoluta de que o gato havia finalmente retornado e arranhava a janela para que eu a abrisse, levantei-me num pé só para fazê-lo. A imagem que já havia visto durante algumas madrugadas antes dessa se projetava em minha cabeça. Tinha certeza de que veria o gato ali, com as sobrancelhas franzidas como quem espera há muito tempo. Abri a janela.
Não havia nada.

Senti ambas as rachaduras em meus ossos enquanto um calafrio gelado subiu da sola dos meus pés até meu couro cabeludo pela coluna vertebral. Estagnei. O vento gelado que bateu em minhas costas certamente não vinha da janela, que estava posicionada logo à minha frente, mas causou arrepios que me fizeram estremecer violentamente. Tentei virar-me devagar, primeiro os pés, depois o tronco, por último a cabeça. De olhos fechados, todas as histórias fantasmagóricas que ouvi durante a vida vieram à minha memória.

Abro os olhos.

Ela está ali.

A mão ossuda de meus sonhos.

Pálida e sem vida como se tivesse acabado de sair debaixo da terra.

É a única coisa que vejo fora da sombra que se projeta dentro de meu guarda-roupas.

Congelado de pânico, sigo-a com os olhos até onde supostamente está a face da criatura.

Ela sai das sombras.

Branca.

Os ossos das maçãs do rosto, projetados para fora.

As olheiras profundas e escuras que por um momento ocultam os olhos gigantes da bizarra aparição.

Um sorriso malicioso de dentes podres e fétidos que se abre cada vez mais, até quase rasgar a pele que parece com papel de seda.

Os olhos amarelos sobrenaturais do gato.

Sorrindo, as órbitas oculares esbugalhadas, sobrevoa o piso lentamente.

Ela vem até mim.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ao Meu Outro Eudopassado

Ao Meu Outro Eudopassado

Das questões do meu eupassado, a quem respondo um ano após, com meu eudofuturo.

Caro Eudopassado,
temo que 2016 não tenha se saído como você esperava. A continuidade aguardada se tornou gradualmente um início completamente diferente, e eu confesso que ainda não descobri se isso foi bom ou catastrófico. Vejo ambos os lados, sempre em uma mutação constante e radical que possui picos e depressões.

Calma, isso já passou. Evaporou da sua vida há um tempo razoável e isso foi ótimo. A hora certa para uma saída (finalmente) completa e, até então, imutável. Toda a confusão, o choro e a ansiedade se tornaram o vazio, preenchido por sentimentos que arderam, ardem e ainda parecem impossíveis. Um pouco dele foi preenchido pela luz de uma relação semi pacífica que, bem de vez em quando, você consegue observar do alto.
Talvez, meio sem querer, você tenha alcançado a aquietação diante do que aflige e entendido que esta também é uma forma de iluminação.


Observo de longe que a amizade foi uma ponte necessária para atravessar um mar violento. Dada a travessia, a mente voltou ao seu estado introvertido natural. Isso não é ruim - mas também não tenho a autonomia que me levaria para dizer que se aproxima de algo bom.

O amor foi louco. Continua ardendo. O coração se preencheu de uma forma que eu não achei que existisse ou fosse possível, mesmo após tantas facas. Ele tem cabelos lindos e me apresentou um novo universo em vários sentidos. No sentimento de deixar livre. No contato físico. Nas portas abertas para dentro de seu mundo perfeito-musical-sereno-particular. Na liberdade de tornar externo todo e qualquer pensamento. Nas reflexões compartilhadas. No meu quarto nas tardes quentes. No quarto dele em dias frios. Nas mãos. Nos olhos. Na ponta dos dedos.


Descobri coisas estranhas sobre as palavras. Como se elas não me bastassem mais, mas ao mesmo tempo sempre estivessem presentes. Como se fossem minha bênção, e também minha maldição. Como se continuassem servindo - mas como complemento. Só pra suprir lacunas. Só pra não me perder no espaço tempo.
Ocupada demais vivendo presencialmente para escrevê-lo. Tornando-me a humanidade, ao invés de mera observadora de tal. Atravessando cortinas difíceis que provavelmente me beneficiarão num futuro próximo. O orgulho vem na observação da falsa calmaria passada, que forçava a manter estático.


Aprendi, de uma hora pra outra, a amar a mutação. Esses sentimentos confusos. Os choros, a raiva, a sensação de não fazer parte.
Pois tudo isso é movimento. Continuará sendo movimento. E eu amo o movimento. Eu amo a minha completa, confusa e maravilhosa condição humana.

O surrealismo da chuva e das conversas estranhas naquele cubículo escuro. E no banco de trás do carro, em um abraço de seis braços, onde amei 2016. E na miniatura de floresta, com a baunilha nos meus lábios, onde amarei 2017.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Bifurcação

Bifurcação


Eu sempre me importarei. A vida é e será bonita. Nada se faz tão claro quanto as flores que brotam em Agosto. A natureza é um espelho gigante que reflete toda a humanidade, até eu e você.

Agora é quase primavera, e às vezes eu choro depois de ver seu rosto, porque seus olhos ainda faíscam pra mim. Eu sinto medo da promessa que fiz nas entrelinhas, de tomar conta de você. Morre uma parte do meu coração pensar na parte da minha alma que habita seu ser. Eu decorei seu jeito de caminhar e de estreitar os olhos. É difícil tornar-se estranho de quem conheceu todos os seus lados escuros. E mais difícil ainda pensar que não existe solução plausível, porque não há vínculos de amizade entre duas pessoas que nunca foram, de fato, amigas.

Sofro de aflição quando lembro do que você me dizia sobre seu medo da falta de um objetivo de vida. Eu desejo que você já o tenha encontrado. Eu desejo que ele seja mais do que você esperava. Eu quero que você encontre uma cidade grande e iluminada que acalente seu espírito e te faça voltar a crer na sua própria bondade. Porque nós dois sabemos do seu coração de verdade.

Eu sei que provavelmente sou uma pessoa diferente da que te conheceu há quase três anos, mas eu prometi que cuidaria da sua mente em chamas, lembra? E eu cumpro minhas promessas. Eu sorrio de longe. Eu quero e apoio qualquer coisa que te torne maior. Porque você já é imenso. Você se fez imenso. Você se fez seu próprio lobo.

Deixei que se fodessem o orgulho e a aparência. Eu não ligo mais pra nenhum deles, afinal. Eu desvio o rosto enquanto pende entre nós dois um barbante de átomos ou partículas ou seja lá o que foi que aconteceu aqui. Eu só queria que você soubesse que eu lembro. Que eu sou uma ótima atriz, mas eu lembro. Eu lembro de quando você me disse que se afastaria se isso me fizesse feliz, porque era desse tanto que você me gostava. Eu sinto muito por não ter compreendido o quão valioso era esse sentimento antes. Eu admiro sua forma complexa de amar as coisas.

Eu não tenho mais medo. Porque eu não preciso segurar sua mão pra dizer que te amo. Porque eu sei que você acredita. Porque se o pra sempre for mesmo um estado da mente, a gente chegou lá. A gente montou um pra sempre, nem ligo se funcionou ou não. Nem ligo se você não quer saber do que eu tenho pra dizer. Sempre vai existir a gente. Nós somos ótimos em escrever histórias. Por isso sempre vai existir aquela lembrança dos nossos cabelos iguais. Dos meus olhos vazios. Dos planos impossíveis. A gente escreveu um livro inteiro. Nada mal pra quem nunca conseguiu terminar uma história.

Eu só queria que você soubesse que eu lembro. Que você leva um pedaço da minha alma, e eu sinto, e eu lembro. Eu não queria morrer sufocada com essas palavras. Eu não queria que acabássemos como todo mundo, porque não somos parte do que é podre na humanidade. Eu lembro. Eu sinto muito. Eu agradeço que já dividimos uma estrada e espero que a sua nova te leve pra um lugar extraordinário.

A Lua continua a mesma, independente de qual estrada quem olha pro céu resolve seguir.

sábado, 11 de junho de 2016

Orquídea

Orquídea

The Eternal, Joy Division

pr'aquela orquídea de outro nome, que eu vou sempre bem querer

Eu tenho uma orquídea violeta que ganhei há quase três invernos. Passei-a de um vasinho amarelo a um vasinho azul, e do vasinho azul ao meu jardim. Ela matou todas as minhas flores. É que eu, que tanto amava orquídeas, não sabia que essa espécie de planta rouba os nutrientes das outras plantas. Elas fazem assim: enlaçam as outras com suas raízes fininhas e as matam. Até as árvores grandes, depois de um tempo. Elas matam.

Fiquei com raiva da orquídea por muito tempo. Mas sempre que ia arrancá-la de lá pra salvar as outras flores, ela floria. O sol batia na orquídea violeta e nasciam outros botões. E eu sempre desistia de arrancar a orquídea. Mas ela matava todas as minhas flores.
Um ano depois, quase todo o meu jardim estava morto. As rosas, os lírios, as hortênsias, tudo.  E mesmo que fosse poética a situação daquela flor, mesmo que ela fosse bonita, mesmo que eu sentasse ao lado dela pra contar histórias... não deu. Procurei um jeito de tirar a orquídea da terra e plantá-la de volta num vasinho. Não era culpa, era só a natureza da flor. Mas, de novo, ela matava todas as minhas flores.

Ela ficou morando na estufa, com as outras orquídeas. No início eu ia mais lá. Visitá-la. Mas orquídeas não precisam de tanta água. Elas morrem afogadas de amor demais. Comecei distanciar minhas visitas. Principalmente porque precisava cuidar do meu jardim, que estava morrendo. Fiquei assim até as outras flores voltarem a florescer – demorou um pouco, mas voltaram. As abelhas também voltaram, junto com as joaninhas e as formigas. Meu jardim estava bem.

Mas eu sentia saudades da orquídea. Às vezes ia até a estufa pra ver como ela estava. Porque tinham conversas que não funcionavam com as outras flores. Eu não me importava que ela tivesse matado meu jardim. Não era culpa dela. Era a natureza da orquídea.
Nas visitas periódicas, ela me compreendia. A gente conversava sobre coisas que as outras flores não entendiam, porque a alma das outras flores era diferente – elas já haviam morrido. Mas minhas saudades não mudavam a natureza da flor.

Pensei que tem flores que nascem pra viver isoladas, assim, num vasinho azul ou amarelo. Que a gente acha belas e vai visitar de vez em quando. Que a gente continua adorando, mesmo depois do estrago imenso no jardim.

E eu ainda amo as orquídeas. Mas no meu jardim não. No meu jardim, nunca mais.

sábado, 5 de março de 2016

Sem Tinta

Sem Tinta

Mad World, Gary Jules

Eu roubaria sim. Contrariando o que disse mil vezes antes dessa. Eu roubaria. O tempo. Porque tudo parecia menos urgente sem um prazo a contornar. E mais fictício num período de 900 dias ao invés de 300.

Porque quando corre mais depressa não sobra tempo pra jogos. Nem mágoa. Nem desenterro de passado. Nem nenhum tipo de raiva. E eu não quero não conseguir dormir por questões de peso na mente ou na alma. E eu não tenho tempo para corações partidos.
E além do tempo, segurar sua mão. Porque todas as coisas poderiam ter esperado. Tempo vai mais devagar com você, porque quando te seguro corro mais rápido. E porque eu queria te apresentar meu quarto antes que você fosse, e antes que eu ficasse pensando nisso pra sempre. Mas eu nunca sei onde você está. Nem quem você ama. Nem se você ama. Nem onde eu estou. E sou eu que não consigo deixar pra lá, afinal de contas.

Jurei que dessa vez faria tudo. Mas como tudo, se amor é um processo tão cooperativo e as pessoas são tão individuais? Se isso é o conformismo, eu não quero mais. Se essa inércia é aceitação, eu não me sinto tão plena em aceitar. E se o que estou fazendo é discurso, eu desisto. Porque não sei mais escrever. Nem tenho o que dizer. E porque a linguagem torna meus sentimentos pequenos do tamanho de uma folha, e me incomoda a ideia de que meus maiores problemas são minúsculos assim.
Essa piada não tem mais graça. E vivendo de brincadeira por tanto tempo, não sei o que fazer a partir daqui. Ou sei. Mas se depende do sentimento do outro ainda é saber?

O mundo faz mesmo esse pouco caso com todos que se apaixonam? Ou quem faz pouco caso somos nós? Ou nenhuma das alternativas, porque na verdade todos estávamos sozinhos?
Eu não sei mais escrever. Porque agora não há ninguém além de mim para culpar. Pela decepção que eu me causei. E pelas histórias que eu inventei. E pelos sentimentos que não consigo compartilhar.
E porque no fim eu tenho muito medo da minha imagem no espelho. E das coisas com as quais conto para me preencher. Eu não sei mais escrever. Nem por que choro. E é verdade, eu buscava iluminação. Mas nunca achei que a luz fosse cair sobre mim mesma como quem diz vá se virar. Daí choro por todos os não culpados que culpei. Por mim mesma também.

Porque começo temer que todas as afirmações sobre amor próprio talvez não se apliquem a todos. Que existem seres fadados a segurar a mão alheia para não tropeçar. Mas e quando a mão alheia não quer mais nos segurar? Todos os dias no colo de alguém diferente, e nunca sem parar de correr. Eu não sei mais escrever.

Sabia que o tempo corre diferente para quem vai rápido e quem vai devagar? Não fui eu quem disse. Foi Einstein. Eu não digo mais nada. Porque eu não sei mais escrever. Porque palavras são muito limitadas para o meu reflexo. Porque minha luz e minha dor e meu amor e minhas lágrimas não são tão simples quanto 500 caracteres. Porque eu não caibo mais dentro de mim. E porque, finalmente, eu não sei mais escrever.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Elétrico

Elétrico

Colors, Halsey

Dormiu na minha torre como quem aproveita um castelo pela primeira vez. Os pés sobre o baú, as mãos sob o travesseiro e os olhos na estante. Sorria de longe, escondida, para a melodia da caixa de música que você fazia funcionar. E prendia meus cabelos séria, com você no canto dos olhos, esperando na porta.

E nessa de implorar silenciosamente por calma durante tempo demais, fazendo jus às minhas presas, seu espírito elétrico corria sem parar. Quando me tocava, a corrente me fazia pular. Você vermelho vivo, gritante. Eu azul denso, triste. E nós lilases.
Você abrindo trilha e empurrando galhos. Eu ao fundo, dizendo espere. Devagar. Com cuidado. Dizendo vamos sair da floresta, que aqui dentro é escuro. E dizendo ey... não morda forte assim.

Gargalhava enquanto você contava sobre minha própria grandeza. Mas me calava por dentro, ouvindo sua filosofia sobre as possibilidades infinitas do ser. Quando parava de gargalhar, chorava. E você nunca dizia quase nada. Só que não era pra eu falar coisas assim, que elas te assustavam. Eu sabia mais sobre medo do que você sabia sobre coragem.

Sentia muito pelas vezes em que te chamava e me afastava quando te via chegando. Te esfaqueei com o medo que sentia de não conseguir escapar de você. Da sua possibilidade de viver sem mim e continuar inteiro. Porque você sabe que sou egoísta sobre corações. E eu sei que você é capaz de desaparecer de repente.

Todos falavam sobre você como se tudo sobre seu ser fosse possível. Como se nada estranho fosse inesperado, nenhuma das inconstâncias. Com suas expressões de “Ah, sua bobinha, você não esperava isso dele?...” achavam engraçadinha a raiva que eu sentia quando alguém perguntava sobre.

E depois de algumas amoras, uma blusa no meu armário, a última estadia na minha cama e um hiato, te vi de longe. E com o tiquinho de raiva que move meu amor admiti que continuava te achando fantástico. Com seus colares e sua pulseira e seus óculos escuros. Mesmo que você segurasse outras mãos. Mesmo que eu segurasse outras mãos e que minha mente corresse em torno de duas outras pessoas diferentes.

Dessa vez, quem esquivava era você. E eu fui embora pra outra casa. Com você pendurado por um alfinete na minha jardineira, e eu pendurada por um cordão no seu pescoço.

Você é meu pra sempre. Eu quebrei seu coração.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Das Nuvens

Das Nuvens


Perguntaria aos mestres as fórmulas que preenchem a solidão que se descobre enquanto se estuda a mente. E temeria que nenhuma delas silenciasse o medo da completa individualidade.
Abriam a boca para me contar que “cada ser nasce e morre sozinho” enquanto de olhos fechados eu nutria a certeza de que compartilhava da mente do outro.
Sinto muito, Buda, Sócrates e Osho. Pelas lágrimas que se tornam mais reservatório do que rio fluente. Por enlouquecer triturando o que não podia, posso ou poderei modificar. Por tampar os ouvidos diante ao questionamento e ligar a lanterna alheia no túnel de minha própria escuridão.
É só que ainda temo, passarinhos, observar todos os imaginários em particular. Sozinhos com suas interpretações. Projetando no mundo o que ocorre ali dentro. Segurando outro par de mãos para que se sintam menos sozinhos nesse mundo. E sendo os únicos, entre bilhões, a conhecerem os próprios pensamentos na hora de dormir. Quando é madrugada e as estrelas descem. E a loucura parece mais suscetível.

Quando na lógica diz-se de um jeito, a cabeça insiste em se atirar à frente, brincando de prever o que não aconteceu, acontece, acontecerá. Eu digo, dizia calma. Enquanto no colo de cem outros, a cabeça vagava pelo mesmo lugar.
Do trauma de se ver sozinho outra vez após o pensamento que se formava com uma certeza que para qualquer outro caso não existia, não existe - de que o laço vermelho de Akai Ito pendia entre nossas mãos.
E tremer como um terremoto diante de qualquer sinal do perfume. E recusar meu sorvete favorito. Porque a solidão me fazia mal ao estômago. À cabeça. E ao coração.
Vai o enjoo. Fica o medo. De não me sentir nunca mais protegida da incerteza. Porque em minha mente já domina o pensamento: "cada ser nasce sozinho, morre sozinho".
E tentei voltar ao mesmo rio. Mas ele já havia ido embora. E o que eu havia sido também.

Se você não possui, lhe dou. Minha mão. Meu corpo. E meu coração. Não pretendia, pretendo, pretenderei tomar-lhe algo de volta. Porque escolhi te observar no jardim, ao invés de matar suas raízes e te levar pra casa. Assim, você morreria e passaria a ser meu enfeite. E eu prefiro te amar, a amar aos meus enfeites.
É que precisamos aprender o dobro sobre o que ensinamos. E eu precisava, preciso, precisarei aprender sobre a compreensão. Insisti pela segunda, terceira ou quarta vez. E sempre que entrava, entrava melhor. Sempre que saía, saía pior. Cada volta sua o que me fez, faz. Que fazer com a mente, que tem consciência absoluta da necessidade da partida, mas traz intercaladas à sensatez lembranças belas assim?
O cérebro leva tempo para eliminar o que foi imaginado e em seu interior tornou-se realidade. Porque acreditamos na visualização, afinal. Nos planos sem querer. E na certeza da estadia permanente. Que não vai acontecer.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Meu-Eu do Futuro

Meu-Eu do Futuro

O texto é um conjunto de respostas embasadas numa carta bastante sugestiva e curiosa que escrevi a mim mesma no primeiro dia de Janeiro de 2015. O título era “Ao meu eu do futuro”.

Olá, eu do passado. Não foi de todo diferente, mas algumas das pessoas não estavam lá esse ano.

Sim, eu parei na maioria dos dias. Às vezes algo me aflige, e confesso que reluto um pouco antes de chorar. Pretendo libertar esses sentimentos me embasando no fato de que a liberdade não é nada além de aquietar-se diante do que nos entristece.


As coisas não se resolveram. Continua confuso e não parou de martelar sua cabeça por completo – logo desisto de tentar colocar em palavras, e aí, eu aposto, tudo fica certo. Chorei sim, foi muito. Foi embora alguns dias depois da carta. Entretanto, ao contrário do pavor que você mantinha sobre isso, desenvolvi em meu coração o desejo de reconstrução e luta. Vi beleza nas cinzas, no meu antigo eu esparramado pelo chão, afogado numa banheira, quase completamente morto – vi a possibilidade de reconstrução, li sobre a necessidade de nos tornarmos cinzas antes do renascimento. Permiti que seu corpo fosse sucumbido pelas chamas e pela tormenta. E agora somos o que construí até aqui. Baseado em arte, energias cósmicas, companheirismo, todos os tipos de conhecimento que se pode imaginar e, principalmente, o desejo pungente e levemente voraz do amor. Do amor para comigo mesma e para com os outros.

Adivinhe. Estava errada quando escreveu que o ano em que viveu no passado havia sido seu melhor. Não nego a ideia. Mas 2015 foi melhor, também. Nessa brincadeira de reconstrução, vi novas pessoas junto a mim. Vi outros seres apoiando a cabeça no ombro do que um dia foi um criaturinha tão medrosa, só a fim de pedir auxilio. Senti meu corpo no lugar certo. Senti-me útil e necessária. E seria louco escrever que encontrei meu lugar, mas cada dia essa casinha se parece mais com meus próprios ossos e especialmente com minha própria mente. De auxiliar o outro. Oferecer mãos aos que se sentem esquecidos. Conduzir mentes até certa parte do caminho, para que depois sigam sozinhas. O trabalho que para mim é o mais fácil, e que os outros consideram bom o suficiente para que haja busca e pagamento por.

Continuamos conversando, apesar do ritmo ter diminuído gradualmente no último mês, não se sabe por quais motivos. Muita gratidão pela amizade e conhecimento compartilhado. O platonismo desapareceu quase completamente – e não digo completamente só porque não penso que sou capaz de ter certeza sobre alguma coisa.
No outro caso, perda de tempo. Mas não completa. O nariz continua sendo o mais bonito que já beijei.
E, quanto à minha estrelinha, sim. Mas os papeis inverteram consideravelmente. Adquiri as rédeas da situação com mais firmeza – e escrevi claramente firmeza, e não frieza. Um tiquinho por causa do orgulho adquirido em batalha, e outro tiquinho graças ao “domínio” da mente. Foi, é meu amor. Sempre será. Até termos aprendido o suficiente para, talvez, irmos embora separados. Perante a isso, não nutro medo. Tampouco ódio. Nutro gratidão – pelo amor, pela felicidade e principalmente pelo aprendizado. A propósito, ele fez. E ficou belo.

Um bocado. Saudável. Pele. Ele cresceu, e pretendo mudar de leve muito em breve. Ainda não. Não, mas quase-quase-quase (de qualquer forma, não é mais uma prioridade). Sim. Sim. Não, e nem pretendo.

Ainda não. Ênfase no ainda. Os planos sobre isso têm parecido mais reais, apesar de todas as reviravoltas. Não me deixa triste, pois não é prioridade. Gosto e admiro muito ambas, mas tenho migrado para novos ritmos – até samba.
Obviamente continuo – se parasse de escrever, como respiraria? –, mas ainda não. Ainda. Dei os primeiros passos sobre isso há alguns dias.

Um bocado sem sentido, principalmente no quesito mercado. Mas, como citei, não me importa mais um terço do que importou – encontrei meu lugar, e é deveras confortável. Um pouquinho das coisas, e sim, me deixou feliz.

Não continuo, mas tudo bem. São ciclos. Antigas pessoas se vão e novas surgem.
Não sei responder sobre paixão. Se é sobre haver alguém novo, houve. Que de quebra apresentou soluções que antes pareciam distantes demais sobre o que pode ser o “amor” – me apresentou um pedacinho de mundo sem ter nenhuma consciência do que fazia; me segurou no colo; cantou pós punk; me apelidou de raposa; mostrou o alinhamento de vênus e júpiter debaixo duma árvore. Passarinho voa, e eu também. Bem tranquilinhos, bem amadinhos, e bem satisfeitos. Simples. Assim: “até a próooxima”, rindo.

Levando em conta a urgência das perguntas feitas por você do passado, sim. Mente sempre gira, mas creio que esteja girando menos. Os momentos de tranquilidade e calmaria foram maiores, mais longos e profundos. Você conheceu budismo... e meditação.

O que me aflige agora... Nada em especial. Talvez algumas questões não postas em palavras, não postas para fora. Um pouquinho de medo de pensamentos críticos sem sentido nem embasamento.
O que me deixa triste... Neste exato momento, nada.
O que me deixa feliz... Quase tudo. Observar minha própria mutação. O tom do céu às seis e vinte da manhã.

Mudaram. Mudaram muito. Mudaram drasticamente. Talvez mais do que no passado, mas, é claro, tudo em seu tempo. Que sirva de lição: o seu medo saltou da escuridão e te encarou por meses a fio. Nada foi mais pesado do que seus ombros puderam suportar. Às vezes a mente tenta tanto ir à frente, brincar de descobrir o que será, que não lembra do fato de que quase nunca, quase jamais, temos propriedade suficiente para decidir o que nos fará melhor.

Amanhece agora. Muitos pássaros cantando. Vento gelado e céu lilás com pontinhos cor de rosa, como fica depois de muita chuva. O meu favorito.

(Ah, e felizmente, ninguém morreu!)

domingo, 1 de novembro de 2015

De Corpo, De Espírito

De Corpo, de Espírito

Ouvindo: When You Sleep, My Bloody Valentine

Às vezes imagino que o universo é sarcástico. Enquanto em minha mente o corpo é um complemento acidental da imensidão do espírito, naquela calçada suja ele se tornava objeto central. Entrei no jogo. Desfiz-me da armadura e ri de minha própria sorte. Aparentemente, o corpo que acidentalmente complementa meu espírito despertava naquela criatura literalmente diabólica a espécie de compaixão que pode ser vista nos olhos – mesmo com as íris cobertas por plástico colorido – e sentida nas mãos que acariciavam o topo de minha cabeça. Me arrependi no momento em que neguei o convite que não imaginei ou imaginava que chegaria. Novamente, as paredes invisíveis criadas para separar corpos (e mentes) fizeram com que meu subconsciente sentisse que era errado, independente do sentimento que quase acendia no peito.

Defensora da insignificância corpórea que sou, não me foi relevante enxergar de longe aquelas mãos em cabelos conhecidos, mas que não eram meus. Como uma agulha perfurando a pele, a dor foi pungente e localizada por dois segundos, e sumiu. Sabia que os sentimentos continuavam estáticos, ainda amando, ainda querendo bem.  
Mas me senti só. O tipo de solidão que vai além, novamente, do corpo físico. Solitária na mente. Solitária na minha imensidão inteira. Todas aquelas portas no cérebro, e nenhuma que levasse a alguém específico. Nenhuma que me fizesse querer correr para buscar proteção.
Tentei. Uma. Duas vezes. A primeira, já familiar, me fez rir internamente – estava sendo protegida por alguém que estava fardado como um soldado quando protege a nação. A segunda me fez esquivar e mover os lábios enquanto os pensamentos vagavam por qualquer lugar que não fosse nosso beijo. Não queria estar ali, e levei alguns minutos para lembrar do termo que queria. Era “arrependimento”.

No caminho de volta, longe da confusão, o céu ficava gradualmente mais claro. Não trazia comigo o sentimento que tive na primeira vez, há quase um ano, quando a lua estava no céu lilás e eu comemorava uma paixão completamente maluca. Desejei a mesma luz no coração, e lembrei que ela não estava ali, nem nunca voltaria – não se pode pisar no mesmo rio duas vezes; o rio muda, quem o adentra também. O que permaneceu foi a confusão de um amor sem base, mal resolvido, que aparentemente ainda existe. A sensação de ter levantado as expectativas mais do que deveria. E o cheiro de fumaça.
Sorri quando o sol atravessou a cortina de renda, vindo parar no meu rosto. Era lindo. Transpassava todas as flores e folhas, criando sombras dançantes na parede. “Bata na minha janela”, escrevi brincando. E você bateu.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Unde Salus

Unde Salus

Não preciso ser salva
em minha mente sou maior 
que meu corpo e que seus ossos

Minha casa é qualquer lugar 
sobre as flores, sob a chuva
sob os galhos, sobre o jardim

O que escorre de meus olhos
são galáxias, purpurina
pétalas, nanquim e tinta

Não preciso ser salva
quem salva
agora
sou...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

d'O Retorno

d'O Retorno

Ouvindo: Please Come Home, The Cure

Quando voltei do mar após o tempo que beirou um ano minha casa parecia diferente. O carpete pareceu mais claro, as cortinas pareceram mais azuis e as janelas pareceram alguns centímetros mais baixas...  era o tempo que passava por minha torre, atravessando a renda que cobria as vidraças e chegando à mente, à expressão facial, ao cabelo cada vez mais longo.
Foi necessário um bocado de semanas e outro bocado ainda maior de dias para que voltasse a me habituar às cores do tapete vermelho e azul, à moldura lilás do quadro e à textura da estante bagunçada.

Junto com o tempo que continuava atravessando a mesma renda, na mesma torre, eu cresci. A casa, que antes era tudo que me mantinha segura dos temporais físicos em que trovões fazem sons assustadores, se estendeu a um prédio maior e, logo após, a braços maiores.
Junto com os braços, vieram os temporais emocionais que faziam chover e trovoar pensamentos de gente quase grande. E de leve, mais leve que o tempo, passei a viver noutra casa.
Adorava as estrelas fluorescentes no teto... mas amava aqueles olhos castanhos se estreitando para os meus. Os fiz meu lar. Você foi minha casa. (Não sei até que ponto continua sendo.)

Casa é o que nos protege do temporal e do frio. De quebra, até da ventania que bagunça os pensamentos. Era nos cabelos castanhos que enterrava meus pensamentos sombrios. E era na sua mente, tão similar à minha própria, que estes mesmos pensamentos faziam algum sentido.
O risco que corremos quando transferimos quatro paredes sólidas a uma mente autônoma, entretanto, deveria ter sido tratado com mais cuidado.
Vi minha casa indo embora algumas vezes. Posso dizer, talvez melhor do que ninguém, quão doloroso é sentir uma agulha perfurando a carne – mas também posso explicar, ainda convictamente, que o sentimento de não ter um chão onde pisar e uma porta para adentrar supera a sensação anterior em todos os sentidos. Era aquele medo que fazia as mãos tremerem, a garganta apertar e o estômago revirar mil vezes por minuto. Ver-te indo. Meu lar.

Recentemente, vi meu lar retornando. Como quando saí do mar e atravessei quase 500km de volta, a sensação primordial foi  aquela familiar fusão de calmaria, estranhamento, conforto e dificuldade de adaptação – tudo ao mesmo tempo.
A diferença entre minha chegada ao lar físico, aquele com portas e janelas, era que eu tinha a certeza de que, não importava aonde eu fosse, era ali que ele permaneceria. E quando a você, meu bem... eu não pude ter certeza de absolutamente nada.

O medo que sinto atravessa minha mente como uma flecha, e às vezes sinto como se este mesmo temor se pusesse sobre todos os planos sussurrando que nenhum deles dará certo. Nas noites escuras é difícil ignorar todos os demônios que às vezes sibilam, às vezes gritam, sobre tudo que tem uma chance mais do que gigantesca de desmoronar. Dizem principalmente que só devo aguardar a próxima partida, que é moralmente errado abraçar com tanta força um ser que já entregou um pedacinho de si a outro (embora eu acredite profundamente que a história de “pertencer” não exista).

Dizem que segundas chances são válidas. Nunca disseram nada, entretanto, sobre as terceiras. As quartas. As quintas chances... E eu, que sempre fui tão autossuficiente, mantenho aquele mesmo pé atrás, medrosa como nunca, enquanto mais uma vez coloco um pedacinho do próprio coração para fora da manga.
E embora o desejo profundo seja atirar-me do abismo sobre ti novamente, levando todo o susto e toda a confusão, o que ordenam as regras é a distância parcial, a não resolução completa, o cuidado racional.

Não precisa prometer... mas não precisa partir. Não precisa levar embora a fortaleza que me abraça. Não precisa cruzar todas as rodovias do mundo.
Não sem mim.
Você é minha casa.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cristal

Cristal

Ouvindo: Nude, Radiohead

Fotografei o pôr-do-sol há exatos doze meses. Um ano. Não foi proposital... só coincidiu cruelmente com o dia em que nos encontramos pela primeira vez.
O mundo mudou muito pouco desde então. As folhas da nogueira sob minha janela continuam ficando laranjadas. Elas caem no Outono. O sol continua se ponto lindamente, no exato momento em que passo pela estrada às seis e meia da noite. As vidraças ficam embaçadas de madrugada. Venta durante a tarde. E faz frio durante a noite.

A imutabilidade que a natureza apresenta depois de tantas reviravoltas me afronta. O lembrete natural e pungente de que tudo permanece imóvel no passado, indiferente. Não importa com quantas ou quais metamorfoses a mente tenha que lidar.
Agora, sou um bocado frágil. A chuva diluiu a esperança. As estradas não parecem tão promissoras. Descobri que a profissão não apetece, não acalenta. Prefiro abaixar ao invés de levantar o queixo enquanto atravesso um corredor. E parecer vulnerável não incomoda.
Enquanto tudo desandava, agarrei com força a premissa de que você era o culpado. De que você, com todas as suas particularidades, havia me assassinado. Peço perdão por isso. Quando a vida vai mal e estamos sozinhos, todo o ressentimento precisa pousar sobre algo. Hoje, eu sei, ninguém teve culpa.

Privar-me-ia da habilidade de analise se pudesse, mas analisar é o que faço quando não tenho sono às quatro da madrugada. Algumas dessas analises felizmente acalentam meu coração, sendo assim, achei que seria nobre dividi-las:
Abril passado foi uma utopia fantástica. Tudo estava completo. Você era parte do complemento, mas não todo o preenchimento do pacote. Impossível calcular quantas noites de sono perdi por causa de uma ridícula dor nas bochechas, os pensamentos correndo como loucos em torno do personagem que eu nunca havia escrito.
O dia em que a primeira interrupção ocorreu – aquela que abriu passagem para tantas outras – coincidiu com a agregação de conhecimento devido à universidade, que muitas vezes apresentava dilemas ou questões que confrontavam meus credos, minhas ideologias, minhas opiniões.  Via-me desamparada, mesmo que inserida no ambiente que antes aparentava tanta confiança, tanta inovação, tanto suporte.
Observando de longe, durante o período em que ficamos afastados, seus braços sempre pareceram o porto seguro que me embalaria e acalentaria quando eu sentisse medo. Não sei o motivo exato. Ainda prefiro acreditar que nosso relacionamento não tem (ou teve) base no encontro físico, mas sim mental. O que me perturbava, de certa forma, o perturbava. A capacidade de compreensão era nossa característica fulminante. Permitia uma quase telepatia, aquela troca de olhares que transpareciam o que mil palavras não conseguiriam.
A falta de compreensão por parte do resto do mundo foi o fator base. Da necessidade, digo. A necessidade um do outro. E por mais que muitas vezes a necessidade engane, confundindo-se com “amor”, também fica claro que por ali pairava certa compaixão. Acredito que a necessidade por si só não me faria sentir um remorso de calibre tão alto quando pensava na possibilidade de que você não teria ninguém com quem compartilhar a dor que o afligia quando eu não estivesse por lá. E o desejo físico. Autoexplicativo.
Sempre que te via longe, a imagem que você transparecia era a de suporte. Fortaleza, muralha. Proteção. Protegendo-me. A única criatura viva que já havia ousado compreender minha mente, dor e aflição. A frase “preciso de você” não era mero apetrecho. Era real, se provava real. Acredito que para ambos.
Mas obviamente, você ali não era capaz de resolver tudo. E eu não era capaz de resolver seu tudo. A compreensão era uma arma poderosa, mas os dias iguais tornavam-se monótonos, monótonos, monótonos... queria ter feito tudo com você, mas convenhamos, como dois loucos perdidos dariam a volta ao mundo sem dinheiro pra gasolina? A realidade sempre foi dura demais com os contos de fadas.

Temos mentes de cristal, amor. O cristal é tão fino, tão frágil. Talvez apenas não tivéssemos prática com o manuseio. Coisas como esta acontecem o tempo todo. Eu não tive culpa. Você não teve culpa. Foram só as influências, as circunstâncias, as consequências –  como dizem na Filosofia.
PS: Neste texto não há conclusão. Apenas fatos. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Ninfa e o Monstro

A Ninfa e o Monstro

"Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. Se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." (Friedrich Nietzsche)

A casa está vazia. O farfalhar das folhas é o único som presente. As cortinas de renda permanecem estáticas sobre as venezianas abertas. A constelação fluorescente no teto emana uma luminescência azulada. Olhos azuis me encaram do pôster na parede.
É tarde. Quase três. O horário em questão faz explodir memórias que tento há, quase trinta dias, ignorar. A tarefa mostra-se impossível perante à solidão escura.

E não há palavras que acalentem, abraços que afastem, mãos que espantem ou canções que aliviem A Ideia. A Ideia. A Ideia que anula qualquer organismo lógico semelhante e sussurra que tudo sumirá comigo em breve. Enquanto não some, porém, vaga por minha mente como uma alma penada sem direção.
Diferente. Desconfortável. Aterrorizante. Desconhecido. Poderia passar a eternidade buscando palavras e tenho certeza absoluta de que nenhuma retrataria com exatidão o sentimento abrasador que mata o que existe – se é possível que ainda haja algo – em meu coração.
A fusão de ódio, saudades e raiva das saudades, tolice, masoquismo, desejo de vingança e (talvez) empatia se torna uma bola de neve pesada e insistente, pronta para despencar e extinguir a chama minúscula de esperança que tento corajosamente manter acesa.

O monstro de asas negras reaparece para sussurrar ao pé de meu ouvido. Ele conta histórias sobre sentimentos que definham no canto escuro do quarto que poderia ser minha mente. Aproxima-se lentamente, respirando ruidosamente e propagando um odor familiar. Força memórias sobre as quais não tenho controle. Faz-me divagar sobre elas.
Ele costuma me pegar durante o sono, quando tudo parece tranquilo. Traz a tona a sensação de braços em volta de minha cintura, um coração acelerado batendo contra o meu próprio, do perfume não tão familiar, do medo, da angústia, da ausência de necessidade – pois tudo que eu desejava estava parado diante de mim afinal –, da falsa esperança antes do retorno do ceticismo comum. Acordo desesperada, a taquicardia sempre presente, os olhos esbugalhados, a respiração descompassada e um turbilhão de pensamentos suicidas.

Outra parte de meu ser, que dá-se pela janela minúscula no mesmo quarto citado anteriormente, tenta segurar meus punhos com seus dedos de cetim. A ninfa da esperança, que imagino como, literalmente, uma ninfa, diz-me suavemente com sua voz de anjo que devo continuar andando. Que os vislumbres do passado não passam do som de passos que me seguirão para sempre e que aprenderei, com o tempo, a ignorar por completo. Que ainda há chão a ser desbravado, que a coragem acesa em meu peito nunca foi apagada por completo. Que não tive, tenho ou terei medo de cruzar esse mundo sozinha. Que tudo está maravilhosamente bem há muito mais tempo do que horrivelmente ruim, apesar de a segunda opção ter-se feito mais frequente nos últimos meses.
Quando saem por entre seus lábios os sussurros sobre perdão, porém, o conflito começa.

O mesmo monstro de asas negras salta de um dos cantos da sala com uma ferocidade superior a qualquer adjetivo. Com suas garras contorna os pulsos da ninfa e grita, rude, todo o ódio que mantinha trancado dentro de si. Grita sobre uma vida arruinada, sobre um coração partido. Sobre olhares quebrados que se cruzaram por tantos dias, agora cansados. Sobre promessas. Sobre o ser que, após pisotear seu semelhante até a quase morte segurando mãos alheias e escondendo delas toda a verdade por trás do “amor” que sentia, apropria-se do direito de condenar a mentira. Sobre a espera pela resposta que nunca veio. Sobre abrir mãos de toda a liberdade que havia conquistado para acolhê-lo de volta, mesmo em pedaços. Sobre a covardia que teme a verdade e, novamente, sobre promessas. Sobre a ausência do amor que se dizia recíproco nas piores noites de sua ‘protegida’. Sobre egoísmo. Egocentrismo. Materialismo.
A ninfa cai em prantos, ainda apontando os dias de um passado distante, onde o amor poderia, supostamente, ter sido recíproco. Tenta unir, com as mãos frágeis, os pedaços do coração antes inteiro, completo, e estendê-lo a outro, que acaba cortado até a alma pela frieza dos cacos brilhantes. Começa uma busca desesperada pelo positivo, pelo feliz, pelo passado, mas seus olhos estão cada vez mais cansados, suas veias cada vez mais finas e seus ouvidos cada vez mais surdos pelas palavras pessimistas entonadas gravemente em conjunto ao som do baixo.
O monstro senta-se, impotente, ao seu lado. Cansado da luta. O coração latejando de dor. Ambos me encaram friamente, à espera de uma decisão. Acordo.

Por um momento sou pega pela claridade inesperada das estrelas fluorescentes, mas tudo continua estático, igual. Me pego sozinha, na casa vazia, esperando o torpor terminar. Sento-me num pulo, o cansaço mental novamente presente, numa tentativa desesperada de chorar. Mas as lágrimas mantem-se firmes, presas numa caixa sem expressão, junto com tudo que me foi levado embora. E a fantasia se esvai. E a situação é a mesma. E tudo parece igualmente ruim. Monstro e ninfa, ninfa e monstro. Presos no quarto que é minha mente. Lutando eternamente. Essa guerra sem fim.