quarta-feira, 7 de junho de 2017

Être

Être

Me fantasiava de rainha da beleza, beirando o fim dos anos 50. Sentia o tapete felpudo nas partes descobertas do corpo. O ar do aquecedor permitia a ausência da cobertura, balançando meus cachos em câmera lenta. Sentia os cílios falsos pesarem, irritando meus olhos sensíveis. A respiração lenta, que ora absorvia a fumaça contornando o incenso, ora as rosas que baseavam meu perfume, brilhando em tons de roxo sobre o bidê.

Iluminado pela minúscula luz do aquecedor ligado, meu quarto se tornava laranja. O laranja refletia na porcelana do prato que apoiava meus anéis. Ele não anulava o brilho azulado cadavérico da madrugada, que adentrava a veneziana das janelas e era, por fim, absorvido pelas cortinas.

Era melancolicamente bela, a minha solidão. Meu choro atravessava a pele do meu rosto pálido num traço tingido por maquiagem escura, terminando próximo à minha orelha direita, quando repousava sobre a pérola que atravessava o lóbulo auricular.

Eu lembrava do torpor dos dias em que precisei ausentar-me de mim mesma enquanto sentia o gosto do batom vermelho, que parecia mais escuro sob a luminescência laranjada. A dor que os rompimentos me causavam, e a dor que sinto ao projetá-los antecipadamente. O medo da possível e quase próxima necessidade da criação de novos hábitos. O novo que quase sempre me assusta.

Sentia-me terrivelmente sozinha, naquele cenário fictício. Não havia ser capaz suprir plenamente o espaço. Os olhos continuavam transbordando, as lágrimas evaporavam depressa. Retornava ao medo exagerado de fins.

A subconsciência, projetando alternativas também antecipadas, me forçava a lembrar de palavras que tive medo de dizer quando o carro parou sobre a ponte interiorana naquele dia de chuva. O beijo que não ocorreu, porque meu rosto ficou quente demais, e eu preferi olhar pela janela que ladeava o banco do carona, fingindo acompanhar o rio que corria velozmente logo abaixo de nós. Das palavras que eu nunca disse. Dos sentimentos que eu nunca demonstrei. Da mão que entrelaçou a minha tarde demais.

Com os olhos embaçados de lágrimas, vislumbrei uma minúscula fissura entre a renda e o cetim da meia que contornava minha coxa esquerda, logo acima do joelho.
Meu corpo vai partir em dois. Dois. Da dualidade do meu amor. Da dualidade do meu querer estar. E nunca estar. Sempre no limbo do “poderia ser”.

Silence was a killer too.

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