Être
Me fantasiava de rainha da beleza, beirando o fim dos
anos 50. Sentia o tapete felpudo nas partes descobertas do corpo. O ar do
aquecedor permitia a ausência da cobertura, balançando meus cachos em câmera
lenta. Sentia os cílios falsos pesarem, irritando meus olhos sensíveis. A
respiração lenta, que ora absorvia a fumaça contornando o incenso, ora as rosas
que baseavam meu perfume, brilhando em tons de roxo sobre o bidê.
Iluminado pela minúscula luz do aquecedor ligado, meu
quarto se tornava laranja. O laranja refletia na porcelana do prato que apoiava
meus anéis. Ele não anulava o brilho azulado cadavérico da madrugada, que
adentrava a veneziana das janelas e era, por fim, absorvido pelas cortinas.
Era melancolicamente bela, a minha solidão. Meu choro
atravessava a pele do meu rosto pálido num traço tingido por maquiagem escura,
terminando próximo à minha orelha direita, quando repousava sobre a pérola que
atravessava o lóbulo auricular.
Eu lembrava do torpor dos dias em que precisei
ausentar-me de mim mesma enquanto sentia o gosto do batom vermelho, que parecia
mais escuro sob a luminescência laranjada. A dor que os rompimentos me causavam,
e a dor que sinto ao projetá-los antecipadamente. O medo da possível e quase
próxima necessidade da criação de novos hábitos. O novo que quase sempre me
assusta.
Sentia-me terrivelmente sozinha, naquele cenário fictício.
Não havia ser capaz suprir plenamente o espaço. Os olhos continuavam
transbordando, as lágrimas evaporavam depressa. Retornava ao medo exagerado de
fins.
A subconsciência, projetando alternativas também
antecipadas, me forçava a lembrar de palavras que tive medo de dizer quando o
carro parou sobre a ponte interiorana naquele dia de chuva. O beijo que não
ocorreu, porque meu rosto ficou quente demais, e eu preferi olhar pela janela
que ladeava o banco do carona, fingindo acompanhar o rio que corria velozmente
logo abaixo de nós. Das palavras que eu nunca disse. Dos sentimentos que eu
nunca demonstrei. Da mão que entrelaçou a minha tarde demais.
Com os olhos embaçados de lágrimas, vislumbrei uma
minúscula fissura entre a renda e o cetim da meia que contornava minha coxa esquerda,
logo acima do joelho.
Meu corpo vai partir em dois. Dois. Da dualidade do meu
amor. Da dualidade do meu querer estar. E nunca estar. Sempre no limbo do “poderia
ser”.
Silence was a killer too.
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