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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Ninfa e o Monstro

A Ninfa e o Monstro

"Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. Se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." (Friedrich Nietzsche)

A casa está vazia. O farfalhar das folhas é o único som presente. As cortinas de renda permanecem estáticas sobre as venezianas abertas. A constelação fluorescente no teto emana uma luminescência azulada. Olhos azuis me encaram do pôster na parede.
É tarde. Quase três. O horário em questão faz explodir memórias que tento há, quase trinta dias, ignorar. A tarefa mostra-se impossível perante à solidão escura.

E não há palavras que acalentem, abraços que afastem, mãos que espantem ou canções que aliviem A Ideia. A Ideia. A Ideia que anula qualquer organismo lógico semelhante e sussurra que tudo sumirá comigo em breve. Enquanto não some, porém, vaga por minha mente como uma alma penada sem direção.
Diferente. Desconfortável. Aterrorizante. Desconhecido. Poderia passar a eternidade buscando palavras e tenho certeza absoluta de que nenhuma retrataria com exatidão o sentimento abrasador que mata o que existe – se é possível que ainda haja algo – em meu coração.
A fusão de ódio, saudades e raiva das saudades, tolice, masoquismo, desejo de vingança e (talvez) empatia se torna uma bola de neve pesada e insistente, pronta para despencar e extinguir a chama minúscula de esperança que tento corajosamente manter acesa.

O monstro de asas negras reaparece para sussurrar ao pé de meu ouvido. Ele conta histórias sobre sentimentos que definham no canto escuro do quarto que poderia ser minha mente. Aproxima-se lentamente, respirando ruidosamente e propagando um odor familiar. Força memórias sobre as quais não tenho controle. Faz-me divagar sobre elas.
Ele costuma me pegar durante o sono, quando tudo parece tranquilo. Traz a tona a sensação de braços em volta de minha cintura, um coração acelerado batendo contra o meu próprio, do perfume não tão familiar, do medo, da angústia, da ausência de necessidade – pois tudo que eu desejava estava parado diante de mim afinal –, da falsa esperança antes do retorno do ceticismo comum. Acordo desesperada, a taquicardia sempre presente, os olhos esbugalhados, a respiração descompassada e um turbilhão de pensamentos suicidas.

Outra parte de meu ser, que dá-se pela janela minúscula no mesmo quarto citado anteriormente, tenta segurar meus punhos com seus dedos de cetim. A ninfa da esperança, que imagino como, literalmente, uma ninfa, diz-me suavemente com sua voz de anjo que devo continuar andando. Que os vislumbres do passado não passam do som de passos que me seguirão para sempre e que aprenderei, com o tempo, a ignorar por completo. Que ainda há chão a ser desbravado, que a coragem acesa em meu peito nunca foi apagada por completo. Que não tive, tenho ou terei medo de cruzar esse mundo sozinha. Que tudo está maravilhosamente bem há muito mais tempo do que horrivelmente ruim, apesar de a segunda opção ter-se feito mais frequente nos últimos meses.
Quando saem por entre seus lábios os sussurros sobre perdão, porém, o conflito começa.

O mesmo monstro de asas negras salta de um dos cantos da sala com uma ferocidade superior a qualquer adjetivo. Com suas garras contorna os pulsos da ninfa e grita, rude, todo o ódio que mantinha trancado dentro de si. Grita sobre uma vida arruinada, sobre um coração partido. Sobre olhares quebrados que se cruzaram por tantos dias, agora cansados. Sobre promessas. Sobre o ser que, após pisotear seu semelhante até a quase morte segurando mãos alheias e escondendo delas toda a verdade por trás do “amor” que sentia, apropria-se do direito de condenar a mentira. Sobre a espera pela resposta que nunca veio. Sobre abrir mãos de toda a liberdade que havia conquistado para acolhê-lo de volta, mesmo em pedaços. Sobre a covardia que teme a verdade e, novamente, sobre promessas. Sobre a ausência do amor que se dizia recíproco nas piores noites de sua ‘protegida’. Sobre egoísmo. Egocentrismo. Materialismo.
A ninfa cai em prantos, ainda apontando os dias de um passado distante, onde o amor poderia, supostamente, ter sido recíproco. Tenta unir, com as mãos frágeis, os pedaços do coração antes inteiro, completo, e estendê-lo a outro, que acaba cortado até a alma pela frieza dos cacos brilhantes. Começa uma busca desesperada pelo positivo, pelo feliz, pelo passado, mas seus olhos estão cada vez mais cansados, suas veias cada vez mais finas e seus ouvidos cada vez mais surdos pelas palavras pessimistas entonadas gravemente em conjunto ao som do baixo.
O monstro senta-se, impotente, ao seu lado. Cansado da luta. O coração latejando de dor. Ambos me encaram friamente, à espera de uma decisão. Acordo.

Por um momento sou pega pela claridade inesperada das estrelas fluorescentes, mas tudo continua estático, igual. Me pego sozinha, na casa vazia, esperando o torpor terminar. Sento-me num pulo, o cansaço mental novamente presente, numa tentativa desesperada de chorar. Mas as lágrimas mantem-se firmes, presas numa caixa sem expressão, junto com tudo que me foi levado embora. E a fantasia se esvai. E a situação é a mesma. E tudo parece igualmente ruim. Monstro e ninfa, ninfa e monstro. Presos no quarto que é minha mente. Lutando eternamente. Essa guerra sem fim.

domingo, 5 de outubro de 2014

A História Conturbada De Como Adquiri Uma Nova Cicatriz

A História Conturbada De Como Adquiri Uma Nova Cicatriz

Há algo aborrecedor sobre chegar em casa pós-festa. O sol atravessa suas cortinas enquanto sua cabeça gira e lateja, e os algodões sujos de maquiagem sobre a penteadeira parecem te fitar incansavelmente.
É engraçado que a felicidade possa vir num copo tão pequeno, e mais engraçada ainda a velocidade com a qual a mesma vai embora. As pessoas gritam alto demais, giram rápido demais, dizem estupidez demais.  Nunca me sinto no lugar certo.
“Me sinto um pouco perdida!” Gritei ao pé do ouvido por trás dos cabelos longos. Eles riram. Rimos juntos. Quanta graça existe embutida ao fato de estarmos sozinhos nesse mundo? 
Flashbacks piscam como um cordão cheio de luzes. “Você me acha pequena?” “Você é uma das maiores pessoas que conheço.” (engraçado, porque suas mãos envolviam meus punhos por completo, como se fossem gravetos) “Você não me conhece.” E escapuli o mais rápido que pude.
Quando saí, agarrada àquela camiseta preta, tudo pareceu piscar e girar. Tropecei nos meus próprios pés. Ganhei uma nova cicatriz.
Chorava na sala de emergência. Não por ele, ou por ela, ou pelos pontos no meu joelho. Só pela meia-calça de estrelas.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

No Centro Do Alvo

No Centro do Alvo

Criei uma teoria baseada no céu. No céu do crepúsculo e, principalmente, no céu noturno.
O que ocorre é que a imensidão de estrelas flamejantes, nuvens avermelhadas e planetas distantes, de certa forma, gira ao meu redor. E isso tem feito todo o sentido possível.

Era tarde; quase meia noite. Eu encarava a imensidão azul coberta por nuvens alaranjadas que ameaçavam chuva, e o vento frio que balançou meus cabelos me fez tremer, embora não fosse exatamente este, eu sabia, o motivo concreto do arrepio. Não soube como interpretar o que a ausência de estrelas representava. Não no momento.
Sentia como se tivesse me jogado do penhasco mais alto e sido capturada por uma águia, que logo em seguida atirou-me contra uma rocha gigantesca com toda a força que pôde. A pedra caiu sobre mim, e o mundo desabou sobre a pedra. E tudo isso novamente, gerando um ciclo infinito. Não sei como consegui chegar à porta. Ao chuveiro. À cama. E ao sono muito menos, pois nem sequer encontrei rastro dele.

Só agora, exatamente vinte e quatro horas após o ocorrido, é que começo tentar dar palpites sobre o que o céu contava a mim sobre mim mesma. A cortina de nuvens que vi, parecendo tão tristes, porém serenas, escondiam toda a explosão de estrelas, planetas, névoas, galáxias que rompiam a calmaria azul. Situação idêntica à expressão que estampava o rosto que não reconheci no espelho.
E apesar de tentar chorar, eu sabia que o que mais queria no momento era gritar. E brigar com o céu. E xingar as estrelas. E te xingar. E me xingar. Mesmo tendo consciência de que isso tudo de nada adiantaria.

A cena que se forma em minha mente é tão tortuosa, triste e complicada que chegaria a ser bela de se assistir, não fosse eu a moça de vestido.
Ela tem as mãos atadas, e anda com o queixo erguido, de olhos fechados, em direção ao alvo. A seda toca o chão sujo. Seus cabelos soltos balançam com violência. Então, ela finalmente para. Bem no centro do círculo de madeira. Ela abre os olhos, e encara sua dor. Sua dor a mira de volta sorrindo, tão sádica e cruel, como uma desconhecida que a conhece tão bem. Isso a machuca, mas apesar de precisar prender a respiração para não cair, ela continua a encará-la. “Estou disposta a enfrenta-la. Pois é o que eu teria de fazer. Neste agora, ou noutro agora.”. E a dor mira seu peito, fecha um dos olhos, puxa o fio flexível, solta a flecha.  E a flecha a perfura, sim, trazendo com ela a lembrança, e a dor, e a dúvida, e a esperança que foi embora, e o cheiro doce que lhe fez tão bem, e o sorriso e os olhos que brilhavam quando ele acontecia, e as cruéis palavras que não foram sequer ditas por você!, e a outra, e as outras, e todas as pedras mais pesadas.
A moça leva as mãos ao peito, sentindo o sangue morno que flui, mas não tenta estanca-lo. Não tenta impedir as lágrimas. Não há mais risos forçados, ou tentativas falhas de manter algo no estômago. O vento para. A dor a encara ao longe. E suas pernas cedem. E seu corpo finalmente pode descansar sobre a relva. O vestido reluzindo sob um céu denso de nuvens brancas, parecendo cortinas. E ela sente a flecha. E evapora lentamente em direção à luz.

Certos fantasmas precisam ser encarados. Certas dores, sentidas. E quando as tentativas de ignorar falham, e tudo parece perder a cor, talvez devamos caminhar até o centro do alvo. O fiz. Porém nenhuma parte evaporou, ou foi em direção à luz. Penso que talvez isso leve tempo. E pergunto-me se o tempo, por si só, será capaz de levar consigo todos os resquícios de alma para que esta possa, enfim, buscar resolver suas pendências com outro ser pensante. Talvez tão maravilhoso quanto – o que ainda parece impossível.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A Última Flecha

A Última Flecha

Às vezes penso que devíamos ter permanecido entre olhares cruzados... Entre os risos inocentes que não iam além dos corredores, as expectativas secretas que alimentávamos sobre o outro, o desejo inconstante.
Apesar de brilhantes e arregalados, meus olhos não te contariam sobre a bagunça que se passou e se passa, inquieta, no interior de minha mente maluca. Maluca. Acho que se a maluquice existisse (você sabe que não acredito no “normal” e no “maluco”), seríamos pessoas malucas. Além de imprestáveis, cruéis, sem um pingo de piedade e nem, tampouco, um coração para machucar.

Sinto que corremos em direções opostas pela mesma louca e assustadora razão: nos pegamos sentindo, e o céu sabe que é exatamente do “sentir” que temos medo.
A explicação do adeus - “Desculpe, mas preciso ir embora antes que nosso tempo acabe e não nos reste desejo algum” – foi rápida como uma bala; ou melhor: uma flecha medieval.
Lembro como se tudo houvesse ocorrido há apenas alguns segundos, e não dias. O tremor que percorreu meu corpo e concentrou-se nos lábios numa tentativa falha de sorrir. A única lágrima que fui capaz de derramar. Meu coração disparado como o de um pequeno pássaro que se viu fora do ninho pela primeira vez.

Sinto como se cada gesto nos tivesse transportado a isso. Cada quase-beijo, cada abraço, cada partícula de seu perfume em meu casaco pesado. Cheirava a morte. Término. Adeus.
Quando me deitei tendo a consciência de que aquele dia havia sido o último, meus batimentos cardíacos estavam tão altos que jurei que desmaiaria por pura adrenalina. Nenhuma lágrima caiu. Pensava sobre nossas almas desgraçadas, ligadas inegavelmente, que haviam se encontrado no pior momento possível, e se separavam por pura covardia, pelo próprio medo do futuro. Você, eu: quem é mais detestável?

Sorrir enxergando seus olhos estreitos daquela maneira doce me custou mais força que eu imaginava poder acumular. Nem todas as drogas que correram por minhas veias doeram tanto, física e emocionalmente.
Quando meu desejo era cair em prantos e atirar o que resta de meu corpo aos seus pés, pedindo perdão por algo que nem sei se fiz, simplesmente sentei-me sobre as próprias pernas dobradas e pus-me a observar a lua... Ela aparecia por entre as árvores, como um sorriso que me provocava, e você estava parado debaixo dela. Foi uma cena linda, linda de se escrever.
Pego-me pensando se sua suposta força o permitiu pensar que, em algum momento, merecemos o que se passava. Reflito até mesmo sobre a possibilidade de sua frieza e sarcasmo intencionais terem lhe protegido de toda e qualquer dor de paixão.

Dentre todos os corpos que utilizei para encontrar alguma autoridade sobre o meu próprio, o seu só me fez ter mais certeza de que quem está no comando não sou eu. Nunca fui.
Fico aqui, sem escapatória, presa em uma mente emaranhada em confusões. Meu coração não está quebrado, mas isso é tão pior, como se ele não fosse capaz de sentir nada...

Por puro egoísmo peço então, enquanto corre a primeira e última lágrima que fui capaz de derramar refletindo sobre tudo: Não me guarde na gaveta. Não se esqueça de como minhas mãos pareciam pequenas. Não permita que o futuro sobre o qual te fiz devanear evapore, ou que eu me torne mais um buraco em seu cinto. Não esqueça de minha convicção sobre o copo estar meio cheio, e muito menos do cheiro “doce”, puro e verdadeiramente apaixonado após meses de ceticismo, que - eu tenho certeza - permanecerá te seguindo para sempre, principalmente durante suas visitas ao mundo doentio e ilusório que criamos com a facilidade de quem escreve fantasia. 
Como Tolkien... Como Lewis... 
Você entendeu.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Jardim De Margaridas

Jardim De Margaridas

Sentada em meio a uma multidão, estava uma garota. Segurava entre as mãos gélidas seus dois lápis de cor favoritos. Um dele era lilás, outro, roxo. Em seus devaneios, estava deitada em meio a um jardim gigantesco, repleto de margaridas. Para ela, margaridas eram flores muito mais bonitas do que rosas. Detestava o fato de que, fora de sua mente, as coisas não eram nem um pouco bonitas naquele dia. As paredes pareciam molhadas e o céu adquirira uma assustadora coloração esbranquiçada, assim como a neblina que não a permitia enxergar as árvores e canteiros lá fora. 
Dias assim parecem muito tristes, de qualquer forma. Principalmente quando se está sozinho com sua própria mente, e ninguém mais. Fazia frio, e o desejo de estar entre as cobertas quentes era só o que predominava. 

Quando o sol desaparecia do céu, a pele desta garota adquiria uma cor estranha. Ela era tão branca que parecia refletir o azul da chuva. Não que a chuva fosse azul, eu só pensei que azul fosse a cor certa para a chuva, como em uma pintura. 

Quando olhou-se no espelho, voltaram a lhe ocorrer certas questões. Questões que a amedrontavam e encolhiam. 
“Por que você não pode ser como a moça que viu nesta manhã? Com cabelos alinhados e pele brilhante?” perguntou-lhe seu subconsciente. “Ela não tinha um nariz muito grande, e suas mãos pareciam estar sempre quentes.” 
Agora a menina, visivelmente diminuída, perambulava os corredores escola afora. Seus cabelos não pareciam nem um pouco alinhados. Suas mãos pareciam pedras, e sua pele... Oh, sua pele. 

Por que o seu subconsciente insistia em perguntar coisas como estas, fazendo comparações? Tão perverso! E por que, às vezes, ela sentia como se não fosse tão forte assim, afinal? Isso passaria com o tempo? 

E a garota, já tão pequena, diminuía gradualmente. Como se tivesse comido o lado errado do cogumelo redondo. Isso pararia um dia? O desejo de ser como os outros? 
Ela não sabia. Mas procurar um universo alternativo parecia uma boa maneira de crescer. As coisas poderiam dar certo algumas vezes, em sua mente tão grande. E enquanto admirava as centenas de margaridas que lhe cercavam, com sua pele brilhante, bochechas coradas e mãos tão macias que passavam facilmente por pétalas da mais delicada rosa, ela sentiu que estava em paz por um pequeno instante. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Um Triste Adeus

Um Triste Adeus

Some corredores estreitos a dezenas de jovens trajados como estudantes bruxos; assim estava o shopping naquele 14 de julho. Fazia frio, e um dos gigantescos relógios na parede apontou vinte e duas horas. Naquele momento, durante aquela curta badalada, os pequenos bruxos reviraram-se em seus assentos. Eles tinham algo esperando-os por trás daquelas portas. Os corredores, antes vazios e escuros, foram completos por magia e vestes compridas, vestes estas que acariciavam o soalho carinhosamente, como nunca antes. 

E lá estamos nós novamente, crianças acompanhadas pelos pais, esperando sem o mínimo de paciência adentrar aquela escura sala de cinema. Harry Potter e a Pedra Filosofal, diziam cartazes bonitos e coloridos, que naquele momento soltavam luzinhas pelo ar.

As fitas amarelas e vermelhas que antes continham todos aqueles jovens, agora pairavam, solitárias, pelo chão. A bilheteria abrira. Pela última vez. E aquela garota coberta por um fofo cachecol azul e prata derramava sua primeira lágrima. 

E lá estamos nós novamente, empunhando varinhas que pareciam gravetos sem valor diante dos olhos sem treino. Nossos pais riem e reviram os olhos. O que teria o bruxinho Harry de tão especial? E o cartaz que passara despercebido não brilhava, mas anunciava Harry Potter e a Câmara Secreta, com um basilisco e uma garota de cabelos cheios.

O cinema daquela pequena cidade nunca havia recebido tantos bruxos, e os flashes das câmeras faziam tudo parecer com um sonho. Quem diria que todos aqueles rostos corados e escondidos parcialmente por chapéus poderiam um dia permanecer tão estáticos? E como se estivessem realizando um íntimo ritual, os estudantes tomaram a bilheteria inteiramente para si.

E lá estamos nós novamente, conversando animadamente com todos os amigos que fizemos. E nossos pais passam a compreender a estória. E em um cartaz ainda maior que os anteriores, estava sendo anunciado Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. 

Todos empunhavam seus bilhetes, sentados organizadamente sobre o carpete, balbuciando tão baixo quanto possível. Os cachecóis e broches coloridos eram os únicos pontinhos de cor dentre as inúmeras capas pretas, e os bruxos, cada vez mais, ansiavam pelo momento em que adentrariam a sala escura de cinema. 

E lá estamos nós novamente, desta vez sozinhos. Temos onze anos de idade agora, e não sabemos o motivo que leva Aquele Que Não Deve Ser Nomeado a fazer tanta maldade. As coisas estão mais sombrias, e os inúmeros cartazes brilhantes e azulados estampam as paredes daquele pequeno shopping com Harry Potter e o Cálice De Fogo.

As últimas portas que distanciavam os espectadores da sala de cinema foram abertas, e os bilhetes eram carinhosamente carimbados por um homem de pelo menos 60 anos de idade, que não parecia se incomodar de estar ali naquele momento. O relógio eletrônico - agora mais distante e invisível aos olhos bruxos - apontou vinte e três horas. 

E lá estamos nós novamente, sentindo, pela primeira vez, receio pelo que estava por vir. As paredes estavam repletas de cartazes alaranjados que exibiam um grande e curioso pássaro, e as letras brilhantes anunciavam Harry Potter e a Ordem Da Fênix. Um casal de amigos segurava seu par de ingressos.

Agora os estudantes tomavam toda a saleta de cinema, ansiosíssimos. Como seria não repetir o mesmo feito no próximo ano? Como seria não ter algo pelo qual esperar? Eles não sabiam. Arrisco ao dizer que não havia nem mesmo espaço no interior daquelas mentezinhas apressadas para algo tão aparentemente insignificante como tal.

E lá estamos nós novamente, e não somos mais crianças. Estamos puxando nossas roupas e usando cachecóis que representam cada uma das quatro casas de Hogwarts. Curiosos sobre como seriam retratadas as memórias de Tom Riddle. Os cartazes agora são verdes, assim como todas as paredes do cinema, e eles possuem luzes piscantes e minúsculas, que formam as palavras Harry Potter e o Enigma Do Príncipe.

Os relógios de todos os cantos apontaram meia noite. E agora era 15 de julho. Um silêncio pleno e absoluto preencheu o ar, que prendeu e atrasou a respiração de cada ser diante da tela; tela, esta, que adquiriu cor. O silêncio liberado por ela pareceu ainda mais abrasador, e as luzes se apagaram. E o garoto que usava um broche da cor verde apertou a mão da garota que encontrava-se ao seu lado. Tudo parecia sombrio agora. Tão diferente das outras vezes...

E lá estamos nós novamente, com a sensação de que só haverá mais uma única vez depois desta. Estamos ansiosos pelos detalhes, e sedentos por mais. E há cartazes e cartões promocionais por toda a parte, que anunciam a primeira parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte, e pela primeira vez foi possível avistar bruxinhos chorando pelas ruas, após o término do filme. 

Os créditos subiram como o final de um filme triste. E não foi fácil, não foi simples. Todos os bruxos, antes felizes e ansiosos, tinham lágrimas por sobre as bochechas, ainda mais coradas do que há algumas horas atrás. Ninguém podia se mover de forma alguma, mesmo depois de as luzes terem sido acesas. O primeiro traço de movimento foi percebido. E os olhos de todos os outros se abriram. Era a hora do adeus, e não havia ninguém para ampará-los além deles mesmos. 
E lá estamos nós novamente. Chorando como as crianças que um dia assistiram, encantadas, o filme sobre um bruxinho e seus dois singelos companheiros. Sobre uma escola de magia na qual todos gostariam de estudar. E magos, bruxos, lordes maus que provocavam arrepios... 

E quando os bruxos chegaram em casa naquela noite, foi o momento em que eles souberam. O momento em que eles se deram conta de que aquilo era o fim de uma década, mas o início de uma era. O momento em que eles se deram conta de que, enquanto seus corações estivessem batendo, e cada um dos sete livros estivesse em suas estantes, Hogwarts estaria lá para recebê-los.